A cena é um clássico moderno do mundo corporativo. Pode ser numa sala de reunião elegante ou numa call meio caótica no Google Meet. De um lado, Produto.
O Product Manager e o Product Designer apresentam a nova feature matadora que vai salvar o trimestre, bater OKR, impressionar investidor e, quem sabe, até virar case de sucesso no LinkedIn. A tela brilha com protótipos impecáveis no Figma. Tudo rápido, fluido, bonito.
Aí a bola chega na Engenharia.
A galera dá aquela respirada silenciosa de quem já viu esse filme antes. Olha para a arquitetura atual e propõe algo sólido: microsserviços bem definidos, mensageria para desacoplamento, banco otimizado, cache distribuído e testes cobrindo o essencial. Engenharia raiz, limpa, sustentável.
Produto: “Perfeito. Quanto tempo?”
Engenharia: “Três meses.”
…e aquele silêncio total
Produto: “Vish, é que precisamos disso pra semana que vem.”
E pronto. Tá criado o cenário perfeito para o nascimento de algo inevitável: a gambiarra.
A Gambiarra
A gambiarra não nasce da irresponsabilidade (é, muitas vezes sim). Ela nasce da pressão. Do prazo. Do negócio que precisa sobreviver.
A decisão vem com um acordo meio informal, quase um pacto:
- pular testes “só dessa vez”
- enfiar uma coluna meio estranha na tabela
- colocar um
if (cliente_id == 123)que ninguém comenta
E a frase clássica:
“Depois a gente volta e refatora.”
Spoiler: não volta.
A feature sobe. Funciona. Cliente feliz. Métrica sobe. Produto comemora.
Enquanto isso, no backlog, nasce um card chamado:
“Refatorar depois”, e ainda sem descrição.
Ele não morre. Ele apodrece em silêncio. E no futuro… simplesmente apagado. Backlog revisado e limpo. Relaxa, é vida nova.
O Nascimento do Puxadinho
Semanas depois, o sucesso cobra seu preço.
Produto volta empolgado:
“Deu muito certo! Agora vamos colocar PIX, nota fiscal em lote e um dashboard em tempo real… tudo nessa mesma feature.”
A Engenharia sabe a verdade.
Aquilo não é uma casa. É uma barraca improvisada. E estão tentando colocar um segundo andar com jacuzzi.
Mas o prazo continua curto. A decisão vem de cima:
“Usa o que já tem. Só adapta.”
Nesse momento, a arquitetura deixa de ser engenharia e vira construção irregular pronta pra ser interditada pela Defesa Civil.
Nasce o puxadinho.
A Arquitetura do Caos
O puxadinho de gambiarra não é só dívida técnica. É dívida técnica com juros compostos, multa e financiamento em 30 anos.
Os sintomas aparecem rápido:
🧱 Código Jenga
Tudo funciona… até alguém encostar. Tirou uma peça, cai um endpoint que ninguém sabia que dependia daquilo.
🧠 Carga Cognitiva Absurda
Para entender uma regra de negócio, o dev precisa:
- entender o código
- entender a gambiarra
- entender o porquê da gambiarra
- entender os remendos feitos depois
- e ainda aprender a fazer gambiarra melhor que a anterior
É praticamente uma faculdade de arqueologia.
🐍 Efeito Hidra
Você corrige um bug… surgem três novos. Cada correção revela outra camada de improviso.
😱 Deploy como Evento de Risco
Sexta-feira vira território proibido.
Mas sejamos honestos… terça também já dá medo.
Deploy não é rotina. É ritual.
A Conta Sempre Chega
Existe um mito perigoso:
“Se deu pra ir rápido antes, dá pra continuar rápido.”
Não dá!
O puxadinho cobra juros compostos.
Antes:
- feature em 2 dias
Depois:
- 1 dia codando
- 14 dias evitando quebrar o sistema
A velocity despenca.
E vem a pergunta inevitável das lideranças:
“Por que vocês estão tão lentos?”
A resposta honesta seria:
“Porque antes a gente corria em pista dupla, segura e controlada. Agora é campo minado, com muito tiro, porrada, soco e bomba.”
Como Quebrar o Ciclo
A verdade é que evitar toda gambiarra é utopia. O mercado competitivo não permite isso.
O jogo não é eliminar a gambiarra. É impedir que ela vire fundação.
🔍 Torne a Dívida Técnica Visível
Dívida técnica não é capricho. É risco.
Mostre dados:
- aumento de lead time
- aumento de bugs
- tempo gasto em manutenção
Quando dói no negócio, vira prioridade.
🧹 Regra do Escoteiro
Sempre deixe o código um pouco melhor do que encontrou.
Não precisa refatorar tudo.
Mas toda feature pode pagar um pedacinho da dívida.
Pequenos cortes evitam cirurgia.
🎯 Negocie Escopo, Não Qualidade
Prazo curto? Corte feature.
Não sacrifique arquitetura.
Melhor entregar metade funcionando bem do que tudo funcionando “mais ou menos” (ou prestes a quebrar).
🌱 Capine o Lote
Se não limpar, vira matagal.
Reserve tempo fixo:
- 20% do tempo na semana ou
- uma semana dedicada por trimestre
Sem isso, o sistema vira um cemitério de decisões rápidas.
Quando fazer gambiarra
Construir uma gambiarra resolve o problema de hoje.
Construir em cima dela cria o problema de amanhã.
No começo, é só um atalho.
Depois, vira estrada principal.
E aí… já era.
O desafio real não é técnico. É alinhamento:
- Produto quer velocidade
- Engenharia quer sustentabilidade
Os dois estão certos. O erro é ignorar o custo das decisões.
Use gambiarras como ferramenta tática, não como estratégia.
Porque uma coisa é fazer um puxadinho para o fim de semana.
Outra bem diferente é tentar construir um império inteiro em cima dele.






